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Kaepernick – Rebelde ou Herói

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   Sempre fui um grande fã de cinema, e um dos grandes filmes da década de 70, é um filme de guerra contando a biografia de uma brilhante general na guerra, mas que por algumas atitudes acaba sendo rotulado de forma pejorativa por muitas pessoas. Ao começar a escrever sobre Colin Kaepernick me veio imediante a comparação entre os dois personages, um dos cinemas, general de guerra e outro da vida real, o qual também já foi general de outros campos, de outra batalha, a das 100 jardas.

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   Colin Kaepernick se formou na Universidade de Nevada e foi draftado em 2011 pelo San Francisco 49ers na segunda rodada. Em sua primeira temporada praticamente não jogou sendo backup de Alex Smith, o qual levou a equipe a final da NFC onde foi derrotado pelo New York Giants. No ano seguinte o time seguia bem na temporada até que a contusão de Alex Smith na Semana 10 contra o Saint Louis Rams deu a chance de jogar ao segundanista. Kaep fez uma ótima partida gerando dúvidas na cabeça de Jim Harbaugh, HC da equipe. Apesar da boa temporada de Smith, o HC bancou a continuidade de Kaep, pois deu uma nova dinâmica ao ataque, sendo uma ameaça também no jogo terrestre. Colin Kaepernick teve recorde de 5-2 levando a equipe ao SB com seu jogo dinâmico, mas perdendo o grande jogo para o Baltimore Ravens. Era época do auge da read option, com Kaepernick batendo recorde de jardas corridas por um QB em um jogo com as 185 jardas contra o Falcons.

   Na temporada de 2013, Colin teve 12-4 na temporada regular tendo 21 TD e 7 INT, além de 6 TD corridos, levando o time a final da NFC contra o Seahawks, onde uma interceptação na Redzone nos últimos segundos acabou com a temporada promissora do Niners.

   Em 2014 recebeu um contrato de 6 anos/126 milhões, no entanto seus números caíram consideravelmente devido as defesas se acostumarem com seu jogo, além de uma temporada conturbada em SF devido problemas de relacionamento do HC com a direção e alguns jogadores, culminando com a saída de Jim Harbaugh.

   Em 2015 foi titular por 8 partidas e depois sacado por péssimas atuações. Em 2016 começou a temporada como reserva mas assumiu após 5 partidas, tendo bons números com 16 TD e 4 INT, apesar da campanha tenebrosa da equipe (2-14). Ao final da temporada Colin abriu mão de seu contrato, apesar de que o novo GM do Niners, John Lynch já havia deixado claro que  tinha decidido dispensá-lo de qualquer maneira.

   Podemos dizer que foi uma carreira de altos e baixos. Quando as defesas entenderam seu jogo ele não soube se adaptar, tendo leituras ruins, além de não escolher o momento certo de correr com a bola. Sua mecânica de lançamento não é das mais apuradas, mas Philip Rivers também não é um primor técnico nos arremessos e mesmo assim tem uma carreira sólida na NFL, assim como alguns QB scramblers.

   Porém, um acontecimento ocorreria e colocaria um tempero na históra de nosso “general”, no começo da temporada de 2016, Kaepernick fez um protesto ficando sentado durante a execução do Hino Nacional, protestando contra as atitudes preconceituosas de policiais contra negros em geral nos EUA, fato que infelizmente é corriqueiro em regiões com maioria branca no país. Esse protesto provocou uma série de discussões, pois foi visto como um desrespeito ao país e principalmente às forças armadas, para que fique claro, em TODOS os jogos da NFL o Hino normalmente é cantado por alguma celebridade, ainda com presença de militares de várias ordens, prova de como o povo americano mostra-se patriótico.

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   Tal protesto foi encampado por outros atletas da NFL e repetido pelo Kaepernick, pois ele se aproximou mais das causas sociais quando entrou na NFL, com a certeza que a sua voz seria mais ouvida. Sua mãe era branca e seu pai negro e foi adotado por uma família branca e sentia que podia fazer a diferença e o protesto durante o Hino foi a forma silenciosa, mas veemente que ele usou para protestar.

    Coincidência ou não, desde sua saída do 49ers não encontrou vaga em qualquer time da NFL até o momento, em compensação, vemos que muitas equipes têm QB titulares ou backups de mesmo nível ou até inferior ao ex QB de Nevada, mas por algum motivo estranho ninguém dá a Kaepernick sua segunda chance. É bem provável que haja um acordo entre os donos de equipes como corporativismo de não contratar alguém “não patriótico”, ou nenhuma equipe quer os holofotes voltados para si por um motivo extracampo. Será que ainda existe um preconceito enraizado nos CEO das equipes? Como seria uma possível recepção de torcedores em seu primeiro jogo em uma nova equipe?

    Sabemos que tal atitude é louvável, mostrar uma posição diferente do bem comum, mostrando que não ficará calado quando observar qualquer forma que diminua uma pessoa ou grupo étnico, mas fica a pergunta: Quem fica agora? Colin Kaepernick, o “Herói” que ficou a algumas jardas de levar o Troféu Vince Lombardi novamente para a Baía ou o “Rebelde” que quis protestar à sua maneira e agora é esquecido no esporte que tão bem representou?

    Talvez Kaepernick seja realmente o novo “General Patton”, numa versão moderna e que trava sua própria guerra, feita de pequenas batalhas, como a batalha contra os figurões de uma liga poderosa que não querem e fazem de tudo para que nenhum outro assunto atrapalhe o bom desenvolvimento dos jogos ou atraia uma atenção que não seja para o que acontece dentro das 100 jardas e também a batalha contra uma sociedade discriminadora. O atleta sabe que  paga por sua ousadia em desafiar um dos ícones da cultura norte-americana, quando não se levanta para o hino e talvez Kaepernick soubesse que as consequência desse ato um dia poderia se tornar retaliações.

      Há também outra alternativa para a ausência de Kaepernick , talvez o QB não tenha o talento e a capacidade suficientes para ser titular em uma NFL que a cada dia se reiventa e aonde a função de QB, principalmente, precisa de jogadores que tenham inteligência para o jogo e inteligência emocional e toda essa celeuma em torno do seu protesto esteja escondendo isso, mas como poderemos responder essas perguntas?

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   Todos merecem a sua segunda chance, e alguém que se posiciona dessa maneira, mostrando paixão pelo que acredita ser o bem de uma minoria, tem uma atitude de líder, fato sempre destacado por seus treinadores e colegas de time.  Talvez ele tenha que se contentar com obras sociais em prol de minorias ou o prêmio de Cidadão do Ano pela revista GQ, mostrando como seu protesto levantou muitas bandeiras e muitas dúvidas sobre essa segregação social que o mundo vive, em alguns pontos velados em outros pontos mais evidentes, Ou, numa outra alternativa, Kaepernick talvez não tenha o talento e a capacidade de ser o QB titular de uma NFL que a cada dia se reiventa e aonde a função de QB principalmente precisa de jogadores que tenham inteligência para o jogo e inteligência emocional e toda essa celeuma em torno do seu protesto esteja escondendo isso, mas como poderemos responder essas perguntas.

   A certeza que fica é que um dia Kaep já se mostrou capaz e poderia sim ter nova chance, até para que todas essas questões possam ser respondidas sem ficarmos apenas nas hipóteses. Esperemos novos capítulos dessa novela e quem sabe em 2018 possamos ver novamente o politizado Kaepernick nos campos, provando a todos nós que pode ser muito mais do que um jogador engajado em lutas sociais e que possa levantar ainda mais sua voz, juntamente com seu talento em campo.

   Espero que possamos voltar a falar de Colin Kaepernick apenas com o que ele faz em campo, pois é sua profissão e que todos possam entender o que ele e seus conhecidos possam ter passado.

 

Caio Fillippi, com a colaboração de Rangel Silva, para o blog Major Sports

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