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Trust The Process: Philladelfia 76ers

Eu duvidei do “processo”

 

 

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que esta pessoa que vos escreve teve a triste decisão de torcer para os times do Philadelphia. Foi tudo culpa de Allen Iverson, seus crossovers e cestas incríveis lá naqueles incríveis playoffs de 2001 em que as duas semifinais e as finais do leste foram decididas em séries por 4-3 – vale pesquisar mais sobre o que foi esses playoffs, em tempos que todas as equipes tinham seus astros e não se formavam panelinhas como hoje, só no leste foram emocionantes embates entre os Sixers de Iverson, os Bucks de Ray Allen, Raptors de Vince Carter, Pacers de Reggie Miller, Hornets de Baron Davis, Magic de Tracy McGrady e por aí vai. Estes playoffs acabaram de maneira triste, com uma derrota para aquele super time dos Lakers de Kobe e Shaq, mesmo após Iverson levar o time nas costas e conseguir uma virada incrível no jogo 1 no Staples Center, em Los Angeles (ALÔ TYRONN LUE!).

iverson

Ou seja, torcer para as equipes de Philadelphia é quase desapegar de títulos e vitórias. Ao contrário de cidades como Boston ou Los Angeles, as equipes de Philadelphia são conhecidas geralmente por serem franquias perdedoras, mesmo que as quatro sejam super tradicionais em seus esportes. Foi há apenas pouco menos de um mês que este torcedor viu um título de um time seu nos esportes americanos, com a surpreendente vitória do Philadelphia Eagles sobre o New England Patriots – só comecei a acompanhar a MLB em 2009, mesmo ano em que a equipe perdeu a World Series para o New York Yankees, e apenas um ano depois da equipe ter sido campeã, em 2008.

E talvez justamente por estar tão acostumado com a derrotas eu devo dizer, eu duvidava muito do “Trust the process”. E duvido que um torcedor do Sixers há pelo menos dez anos não tenha duvidado.

Essa história de “Trust the process” surgiu pouco tempo após a saída de Allen Iverson da franquia (a primeira saída dele, trocado para o Denver Nuggets), quando as campanhas da equipe caíram de vez na mediocridade. Ainda havia Andre Iguodala, que na época era visto como uma esperança para ser uma estrela da equipe. Porém, entre 2006 e 2012 (entre a saída de Iverson e a de Iguodala) a equipe nunca foi pra frente. A única temporada com campanha positiva neste período foi um 35-31 em 2011/12, aquela temporada mais curta por conta da greve – as duas melhores temporadas completas neste período tiveram campanha de 41-41 e nas quatro vezes que a equipe foi aos playoffs, só em uma conseguiu passar da primeira rodada.

Foi depois desta temporada que o então GM da franquia, Sam Hinkie “chutou o pau da barraca” e decidiu que de nada adiantaria continuar com estas campanhas medianas e que valia mais a pena entrar em um rebuild profundo. Esta tática tinha sua lógica, ele acreditava que para se ganhar um título na NBA de hoje se precisa ter ao menos um grande jogador de enorme talento, uma estrela pura. E que nos atuais tempos de “panelinha”, era preciso draftar um destes grandes talentos, já que mesmo os melhores free agents só iriam para equipes com outros bons jogadores e que tivesse chance de ser campeão. E para ter a chance de draftar um talento deste nível, seria preciso perder para chegar no draft com condições de ter as primeiras picks.

Ainda que na lógica fizesse sentido, teve momentos em que foi difícil acreditar no “The Process”. A partir de 2013 os principais jogadores foram trocados, as derrotas vieram aos montes e com isso as primeiras escolhas dos drafts, além de muitas outras escolhas de draft que a equipe ia colecionando com as trocas que faziam. O problema é que no meio deste processo foram vários fatores que foram desestimulando a crença no “The Process”.

O primeiro ponto é que com as primeiras picks vinham jogadores que, na época deram esperanças aos torcedores da equipe, mas que logo mostraram que não tinham o valor que se esperava, casos especiais de Michael Carter-Williams, Nerlens Noel e Jahlil Okafor. O segundo foi o grande número de jogadores que eram draftados, já se lesionavam e perdiam o que seriam sua temporada de rookie por inteira (caso de Joel Embiid, Bem Simmons e do atual Markelle Fultz).

dixon-320996-f-wp-content-uploads-2017-10-100417_markelle-fultz_1200-1200x800Markelle Fultz

A paciência com esse rebuild foi se esgotando, afinal ninguém gosta de perder e não ver nenhuma perspectiva de melhora a frente. Por isso, em 2016 houve a troca de comando dos Sixers, com a saída de Hinkie e a chegada de Bryan Colangelo como GM e presidente de operações da franquia. Hoje, podemos ver melhor o papel que ambos têm para o grande momento que vive a franquia, Hinkie como o mentor intelectual e Colangelo como o que teve a coragem de dar os passos finais deste processo.

De fato, Hinkie tinha razão em mergulhar de cabeça no rebuild, na tentativa de draftar os melhores talentos possíveis (não vou entrar aqui nas discussões atuais que a NBA está fazendo para prevenir o tank evidente). Se pensarmos, no mesmo período houveram diversas franquias que permaneceram na mediocridade, sem nem conseguir competir, e nem conseguir jovens talentos que abram uma boa perspectiva em médio prazo, como Indiana Pacers, Charlotte Hornets e New York Knicks – entra tantos. E Colangelo teve sua parte no processo, ao dar os passos necessários para apressar o fim deste rebuild e voltar logo a ser contender (temporadas como a de 2015/16, com 10 vitórias e 72 derrotas, acabam com a moral dos jogadores e torcedores).

trust the process

Enfim, hoje finalmente podemos dizer, em meio a tantas dúvidas, o Processo deu certo, depois de tanto ver os tweets do Embiid e seus “Trust the process”. Uma equipe titular com Joel Embiid/ Dario Saric/ Robert Covington/ J.J. Redick/ Ben Simmons é não apenas uma das com maior potencial de crescimento na NBA, como já vem se consolidando como uma realidade (para não mencionar a first pick deste ano, Markelle Fultz, de fora quase de toda a temporada até agora por lesão). Não à toa o Sixers passou de 10-72 há duas temporadas atrás, para 28-54 na última e para 32-27 na temporada atual, com chances reais de playoffs depois de muito tempo.

Embiid e Simmons são tidos como duas potenciais estrelas de primeiro nível na NBA para os próximos anos. Embiid é um pivô que ao mesmo tempo tem bastante energia no garrafão, uma técnica refinada e também é bastante competente no jogo de perímetro – fundamental para um pivô nos tempos atuais. Simmons é um dos jogadores mais inteligentes da NBA, apesar de ter uma deficiência clara nos chutes de perímetro, é o tipo de jogador que eleva o jogo de todos os companheiros. Simmons tem bons números nas cinco principais estatísticas do basquete, pontos, rebotes, assistências, roubos de bola e bloqueios.

É claro que a equipe ainda precisa evoluir muito. O jogo ofensivo é excessivamente centrado em Embiid, e em quase toda a posse da equipe o pivô recebe a bola no low-post. Sem ele a equipe troca muitos passes no ataque, mas parece não haver um plano muito bem definido para marcar pontos de forma mais eficiente. A falta de muita habilidade com o jump-shot de Simmons é uma falha bastante grave nesse sentido, já que tanto Reddick quanto Covington são melhores no catch-and-shoot, e tem poucas habilidades de criar espaço para chutar no one-on-one. Essa talvez seja a grande contribuição de Fultz quando volte a equipe – o jogador está em recuperação de sua lesão no ombro e ainda se especula se poderá voltar nesta temporada.

Além deste grupo, que já é prometedor, a equipe deverá ter em torno de 30 milhões de dólares de espaço no salary cap para o próximo ano. Isso colocar o Sixers numa ótima posição no próximo free agency, e deve ser a segunda ou terceira equipe com mais dinheiro para gastar (atrás do Lakers e, talvez, do Hawks). Isso significa a possibilidade de contratar um top free agente para se somar a este jovem e talentoso elenco. Lembrando que no próximo free agency teremos como principais nomes LeBron James, Paul George, DeMarcus Cousins, DeAndre Jordan, Chris Paul e Isaiah Thomas.

A franquia deve aproveitar esse cap space neste próximo free agency ou no máximo em 2019, já que a partir de 2020 já terá de se comprometer com as extensões salariais de Bem Simmons e possivelmente de Dario Saric. E em 2019 os free agents serão menos abundantes, com Klay Thompson, Kemba Walker e Jimmy Butler como principais nomes (ainda que vale dizer, os três são nomes que combinariam perfeitamente com as necessidades do Sixers).

processOutra possibilidade seria a troca por um grande superstar. O Sixers tem a capacidade de bancar um jogador desse calibre, e também tem peças necessárias para conseguir uma troca interessante, podendo envolver tanto as draft picks futuras (o Sixers tem a unprotected first pick de Sacramento para o draft de 2019, muito possivelmente uma das primeiras escolhas) que o time ainda possui, e nomes de jovens talentosos mas que não serão tão centrais para a franquia, como Saric.

Enfim, há poucos anos o Sixers não tinha nada, além de jovens supervalorizados e uma campanha pífia.

Hoje tem Joel Embiid, Ben Simmons, Dario Saric e Markelle Fultz.

E tem espaço salarial para uma grande estrela.

Para o draft de 2018 tem a primeira escolha do Lakers, além da primeira escolha própria. Ainda tem a segunda escolha de Cleveland ou Brooklyn (a que for maior) e a de Clippers ou Knicks (também a que for maior)

Para o draft de 2019 tem a first pick de Sacramento (provavelmente a primeira escolha geral), a primeira escolha própria, a segunda escolha do Knicks e a do Bucks ou Kings (o que for maior)

E para o draft de 2020 tem, além da primeira escolha própria, a do Thunder (top-20 protected) e as segundas rodadas de Knicks e Nets.

philly wants

Ufa!

Tudo isso significa que, se quiser, a franquia pode ir para o all-in e ir atrás de uma ou até duas grandes estrelas via free agency e trade. Ou se preferir, pode esperar o desenvolvimento das atuais jovens estrelas, e pensar em draftar mais novos jogadores nos dois próximos anos e só depois investir mais pesado.

Escolha o que quiser, os Sixers finalmente tem um futuro brilhante pela frente, e pode ser a pedra fundamental de, enfim, uma grande franquia vencedora para Philadelphia.

 

Pra matar a saudade, saiba mais sobre o Allen “The Answer” Iverson neste documentário:

Anderson Proença.

 

Anderson Proença (@andersondap) estréia trazendo esse super texto sobre o renascimento do 76ers, especialmente para o blog Major Sports.

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