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Estatísticas no Esporte – Beisebol

A mudança no esporte, passando por uma nova maneira de enxergar o jogo e como isso influenciou nos dias de hoje.

O beisebol é um esporte complexo. Não só falando pelas estatísticas, mas pelo entendimento de jogo. Para quem não conhece é monótono, não-dinâmico e por muitas vezes sem emoção.

Para os amantes do esporte é incrível, tem jogadas espetaculares nas duas frentes, é por muitas vezes romântico e com muitas histórias de superação.

No texto de hoje é para falar um pouco sobre como as estatísticas mudaram o jeito de olhar para o esporte como é feito nos dias atuais. Antes da nova era dos números, é preciso analisar como era o esportes nas décadas passadas.

Nos primórdios, o jogo era baseado no talento puro e nas estatísticas simples. Por exemplo, quem tinha o melhor slugger da época já saia com ampla vantagem na briga pelo título. Caso de Babe Ruth, icônico jogador com mais de 700 Home Runs na carreira e dono de sete World Series. Na história, é o líder em slugging, OPS (on-base percentage + slugging) e OPS+ (on-base percentage plus slugging plus).

O que essas estatísticas significam? Elas mostram ainda mais o quanto o Bambino era monstruoso nos anos 20 e 30. Começando pelo slugging, que é calculado através do número de bases totais dividido pela quantidade de at-bats (total bases/at-bats), lembrando que as bases são contadas de acordo com a rebatida (simples = 1, dupla = 2, tripla = 3 e Home Run = 4).

Para ser considerado ‘incrível’, o slugging precisa ser de .550. Na carreira, Ruth teve 5793 total bases em 8399 at-bats, o que dá um total de .690, que é muito acima de incrível.

Babe ‘Bambino’ Ruth

Já o OPS seria a soma do on-base percentage com o slugging. OBP significa a frequência que o jogador chega em base seja por rebatida, walk (base on balls) ou hit by pitch (pitcher acertando o rebatedor com um arremesso). A soma no caso de Ruth é de 1.164, sendo que .900 já é considerado um bom número.

Fechando, o OPS+ é a soma em escala do slugging com o OBP, sendo considerado a média em 100, como em outras estatísticas que serão destrinchadas. No caso de Ruth, é acima da média e mais um pouco: 206.

Na mesma época, surgiu Ty Cobb. Outro exímio rebatedor, Cobb não tinha a mesma força que Ruth mas era um rebatedor tão perigoso quanto (líder histórico em aproveitamento com 36,6%). Exemplo disso são as mais de 4000 rebatidas na carreira (Ruth tem menos de 3000) e desde 1908 com mais walks que strikeouts nas temporadas que disputou. O que também atribuí o outfielder a sua qualidade ofensiva fora do comum também está nessa estatística que foi adotada a partir de 1913: o BABIP (Batting Average on Balls In Play).

DETROIT – 1911. Ty Cobb, outfielder for the Detroit Tigers poses before a game at Bennett Park in Detroit in 1911. (Photo by Mark Rucker/Transcendental Graphics, Getty Images) *** Local Caption *** Ty Cobb

Na tradução literal, é a média de rebatidas válidas para colocar a bola em jogo. Na pior temporada nesse quesito, Cobb teve .330 de aproveitamento, sendo que para ser considerado um bom rebatedor precisa ser .350. Em 15 anos com essa estatística em curso, Cobb não atingiu a média em apenas cinco.

Na carreira, Cobb venceu o prêmio de melhor rebatedor da AL em doze oportunidades (ninguém ganhou mais vezes). Porém, faltou o jogador para dar mais potência no ataque. No ano do MVP, por exemplo, em 1911, nenhum jogador do Detroit Tigers passou de oito Home Runs! Inimaginável na MLB atual. E com isso, Cobb acabou ficando sem conquistar a World Series.

Para os dias de hoje

São 100 anos de diferença entre as eras Ruth/Cobb para a atual MLB. Mais do que nunca as estatísticas avançadas fazem parte do jogo e nunca se viu tamanho investimento na área. Desde os prospectos até os mais veteranos.

O pioneiro nisso foi Billy Beane com o Moneyball. Em 2002, após a temporada de 102 vitórias com o Oakland Athletics, não teria como manter estrelas como Jason Giambi (MVP em 2000), Jason Isringhausen e Johnny Damon devido ao baixo orçamento da equipe.

Beane (esq.): o homem que mudou o jogo

Beane, junto com o analista Bill James, fizeram uma análise mais profunda e ‘recriaram’ os atletas perdidos contratando jogadores que não eram do primeiro escalão, mas que tinham OBP constante em suas carreiras como Scott Hatteberg e David Justice. No princípio, parecia loucura investir em jogadores que ao olhos dos mais antigos não tinham como produzir por enxergar o jogo de outra maneira.

Beane colocou o plano em prática para reforçar o ataque e deu resultado: foram 103 vitórias (a mesma do milionário Yankees), com direito a uma sequência de 20 triunfos seguidos! O que mais assusta é que o A’s não liderou em nenhuma estatística de ataque, apenas entre os pitchers que foram mantidos do ano anterior e ainda com o reforço de Chad Bradford, um dos melhores FIP da liga (em 2002, FIP de 2.58).

FIP (Fielding Independent Pitching) é a estatística para a eficiência do pitcher para prevenção de Home Runs (HR), Walk (BB) e Hit by Pitch (HBP) e conseguindo strikeouts (SO) independente da ajuda de sua defesa. Ele é calculado da seguinte maneira:

  • (13*HR + 3*(BB+HBP) – 2*SO) / IP + constant

Na tabela divulgada no site fangraphs (site bastante usado para estatísticas avançadas), é mostrado os valores para o FIP ser considerado entre bom e péssimo:

RatingFIP
ExcelenteAté 3.20
ÓtimoEntre 3.21 e 3.49
Acima da médiaEntre 3.50 e 3.79
MédiaEntre 3.80 e 4.19
Abaixo da médiaEntre 4.40 e 4.69
RuimEntre 4.70 e 4.99
PéssimoAcima de 5.00
Tabela FIP – Fangraphs

Voltando ao beisebol, Oakland mantém sua filosofia. Ainda não venceu a World Series, porém tem o seu norte. Os demais buscaram fazer o mesmo. O Boston Red Sox, por exemplo, venceu dessa maneira em 2004.

O avanço foi tamanho que outras estatísticas são mais faladas nos dias de hoje. Uma que lista os melhores jogadores, seja por temporada ou carreira, é o WAR (Wins Above Replacement), que é a contribuição do jogador com as vitórias através de um número pelo que o jogador produziu na temporada.

Por ela, é medido o quanto o atleta foi responsável pelos triunfos ou não. O WAR é agravante para os dois lados, pois se um atleta atinge um número, será determinante para ‘avaliar’ como foi a sua temporada.

Usando a tabela clássica, a classificação do WAR é da seguinte maneira (usando jogadores da temporada 2019 como exemplo):

  • Menor que 0: abaixo da média para ser substituído (Jeff Mathis);
  • Entre 0 e 2: jogador para compôr elenco (Jarrod Dyson);
  • Entre 2 e 4: jogador titular (Mike Yastrzemski)
  • Entre 5 e 6: All-Star (Shane Bieber)
  • Acima de 6: MVP (Mike Trout e Christian Yelich)

O fenômeno estatístico

Quando se fala em estatística, todos apontam para Mike Trout. O jogador, que subiu para a MLB em 2011, começou a chamar a atenção com o passar dos anos.

Outfielder completo, é o famoso five-tool-player (jogador com cinco ferramentas) por ser bom no bastão, força, braço, noção de campo para defesa e corrida. O camisa #27 é fora do comum para o jogo.

Um exemplo é que em oito temporadas completas atuando nas grandes ligas, o jogador de 27 anos já tem WAR com absurdos 72.5. A frente de muitos jogadores consagrados como Derek Jeter (pentacampeão da MLB), Barry Larkin (campeão e MVP) e Jim Palmer (3x campeão e 3x Cy Young).

O grande X da questão envolvendo o camisa #27 é o fato de jogar a pós-temporada apenas uma vez na carreira, em 2014. Mas antes, uma volta de mais dois anos no tempo.

Em 2012, Mike Trout fez sua primeira temporada completa pelo Halos. A campanha do time foi de 89 vitórias (quatro a menos que Baltimore, o último classificado). Se somar o WAR dos doze melhores jogadores das cinco equipes que foram a pós-temporada, vai ver algo curioso: o Angels tem a melhor marca mesmo não conseguindo a vaga.

Time (temporada 2012)WAR (12 melhores)
Yankees (95-67)41.2
Athletics (94-68)33.4
Tigers (88-74)43.3
Rangers (93-69)40.3
Orioles (93-69)32.4
Angels (89-73)44.1

Até em dWAR (WAR para a defesa) de todo o time de LA, a distância é maior com o Angels fazendo 3.0 no total. Se olhar nas estatísticas mais comuns, se espanta. Na Liga Americana, LA foi o segundo que mais teve rebatidas (1518), o terceiro que mais anotou corridas (767), o segundo que mais roubou base (134), o sexto que menos sofreu strikeouts (1113), o líder em aproveitamento no bastão (27,4%), um dos quatro times com OBP acima de .330 (.332), terceiro em OPS (.764) e o melhor OPS+ (114).

E no montinho? Com base nas mesmas estatísticas comuns, foi o time com ERA um pouco abaixo da média da temporada (4.02), o segundo que menos cedeu rebatidas (1339) e um dos sete que cedeu menos de 700 corridas (699). Porém, foi um dos times com menos saves (38), o quinto que mais cedeu Home Runs (186), ERA+ abaixo da média (95) e FIP acima de 4 (4.26).

Com os pitchers oscilantes, em especial o bullpen, o desequilíbrio ficou bastante notório. Na tabela abaixo, um exemplo mais claro com o WAR geral por posição das equipes em 2012. O time ficou abaixo de Yankees e A’s no geral, mas bastante inflado pelo ataque que foi muito acima dos arremessadores. O que custou a vaga nos playoffs.

WAR por posição Los Angeles Angels 2012 (baseball-reference.com)

Em 2014, veio o ano derradeiro. Trout jogaria os playoffs pela primeira vez na carreira contra o Kansas City Royals, que chegou pelo wild card. LA teve a melhor campanha da American League e foi melhor que KC em quase todas os quesitos de ataque.

Angels (98-64)Estatísticas de ataque (AL 2014)Royals (89-73)
1464 (2º)Rebatidas1456 (3º)
773 (1º)Corridas anotadas651 (9º)
155 (3º)Home Runs95 (15º)
81 (11º)Roubo de base153 (1º)
492 (8º)Walks380 (15º)
1266 (6º)Strikeouts sofridos985 (15º)
.259 (3º)Batting average.263 (2º)
.322 (4º)On-base percentage.314 (9º)
.728 (4º)OBP + Slugging.690 (10º)
110 (2º)OPS+92 (13º)

Já nas estatísticas que envolve os pitchers, a história foi outra. Kansas conseguiu equilibrar mais as ações.

Angels (98-64)Estatísticas (AL 2014)Royals (89-73)
3.58 (7º)ERA3.51 (4º)
3.89 (6º)Corridas cedidas/jogo3.85 (4º)
46 (5º)Saves53 (1º)
1307 (4º)Rebatidas cedidas1386 (6º)
126 (1º)Home Runs cedidos128 (3º)
1342 (4º)Strikeouts1168 (11º)
101 (8º)ERA+110 (4º)
3.57 (3º)FIP3.69 (4º)
7.9 (4º)Hits per 9 Innings8.6 (4º)

Se avançar para o WAR por posição de cada equipe, o Angels tinha o mesmo problema: ataque cobrindo a maior fragilidade, mesmo sendo o segundo melhor. Kansas City seguia pelo caminho inverso, onde os seus arremessadores puxavam a fila.

WAR por posição Los Angeles Angels 2014 (baseball-reference.com)
WAR por posição Kansas City Royals 2014 (baseball-reference.com)

Na série, prevaleceu os arremessadores do Royals contra o Angels. Suportando a pressão de um forte ataque, enquanto que crescia na hora certa contra o rival. As duas partidas em Los Angeles resumem tudo isso, com dois triunfos nas entradas extras.

No jogo 3, de vida ou morte para o Halos, Trout conseguiu sua única rebatida até agora da carreira em playoffs: solo HR para abrir o placar. Mas Kansas virou logo de cara e abriu caminho para a varrida.

O que isso quer dizer? Que sim, o jogador pode ser espetacular, conseguir muitas vitórias e ser o cara para sua equipe na luta pelo título de seu campeonato. Porém, se não tiver uma base que vá além dos números mais comuns, o fator insucesso aumenta e essa é a prova.

Categorias:esporte

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